CropLife Latin America

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A América Latina enfrenta um momento crítico para sua competitividade agrícola e segurança alimentar. A resposta não pode se basear em restrições ou redução tecnológica, mas sim em mais eficiência, inovação e cooperação. Manter os fluxos comerciais abertos, acelerar a adoção de ferramentas digitais, fortalecer o acesso dos agricultores às tecnologias de produção e promover políticas baseadas na ciência serão fatores decisivos para sustentar a produtividade, proteger o acesso aos alimentos e fortalecer a resiliência regional diante de um cenário geopolítico cada vez mais volátil.

Maio 2026
*CropLife Latin America. Todos os direitos reservados. É autorizada a reprodução total ou parcial deste documento, desde que a fonte original seja citada

O panorama agrícola global enfrenta uma fase de instabilidade estrutural impulsionada pela convergência de conflitos armados, tensões comerciais entre potências e uma crise energética persistente. O risco crítico para o ciclo de 2027 não é uma “falta absoluta” de fertilizantes em nível mundial, mas sim uma disponibilidade irregular e uma erosão da acessibilidade devido aos preços historicamente elevados. A seguir, esta análise apresenta o contexto global e identifica ações prioritarias de políticas públicas para a cadeia de valor agrícola.

O fator energético e o conflito global

A produção de fertilizantes nitrogenados enfrenta uma crise estrutural de custos. Segundo o Banco Mundial e a Reuters, projeta-se um aumento de 31% nos preços dos fertilizantes em 2026, impulsionado principalmente por uma alta de 60% na ureia. Esse fenômeno resulta de um “choque simultâneo” nos mercados energéticos e agrícolas; os preços da energia subirão 24% devido às disrupções no Oriente Médio. O Fundo Monetário Internacional alerta que esse cenário não afeta apenas o agro, mas também ameaça a estabilidade macroeconômica global e a inflação geral [2], [3], [4]

Gargalos logísticos: a dupla pressão

A segurança do abastecimento está comprometida devido à vulnerabilidade das rotas marítimas. A Yara International destaca que o bloqueio ou limitação do Estreito de Ormuz afetaria um terço (33%) do comércio mundial de ureia. Soma-se a isso uma “dupla pressão” logística: o custo dos fertilizantes aumenta ao mesmo tempo que o diesel e os fretes marítimos, elevando o preço final nos portos para os países importadores, especialmente em regiões distantes dos centros de produção [5], [6], [7]

Vulnerabilidade e o “nacionalismo de insumos”

A dependência das importações é o maior risco para a estabilidade regional. O Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares (IFPRI) destaca que 90% da agricultura latino-americana depende do fornecimento de nitrogênio (N). Essa situação é agravada por um padrão de “nacionalismo de insumos”:

  • China e Índia: mantêm controles rígidos de exportação para priorizar seus mercados internos [6], [8]
  • Rússia: apesar de ser um dos principais exportadores mundiais e responsável por 25% da oferta global de fertilizantes, restringiu as exportações em períodos específicos.
  • Europa: implementa subsídios energéticos para proteger sua indústria e seus agricultores [6], [9]
  • América Latina: é uma potência exportadora de alimentos, mas importadora crítica de fertilizantes. Isso reduz nossa competitividade e gera pressão direta sobre os preços internos da cesta básica [6], [10].

Em regiões vulneráveis como a África Subsaariana, Haiti e áreas rurais da América Central, o Programa Mundial de Alimentos (WFP) alerta que a crise de acessibilidade impede o acesso físico aos insumos, afetando mais de 700 milhões de pessoas que já vivem em insegurança alimentar.[11]

O impacto na produtividade e no consumidor

A transmissão do risco não é linear. Pequenas quedas na oferta de insumos geram aumentos desproporcionais nos preços dos alimentos:

  • Redução de doses: estima-se que os agricultores reduzam a aplicação de nitrogênio entre 5% e 20% devido aos altos custos [12], [13]
  • Queda de produtividade:  uma menor fertilização pode resultar em perdas de 2% a 8% na produção de culturas-chave[12], [14]
  • Preços ao consumidor: Considerando a elasticidade-preço da demanda por alimentos estimada pela FAO/IFPRI, uma queda moderada nas colheitas pode elevar os preços dos alimentos básicos entre 10% e 25%, gerando um risco significativo de inflação alimentar. O consumidor global enfrentará dificuldades para acessar uma dieta equilibrada e nutritiva, com menos proteínas de origem animal e mais carboidratos, especialmente nas populações vulneráveis [15], [16]

Impacto por cultura na América Latina (2026–2027)

A crise dos fertilizantes poderá impactar a competitividade das exportações regionais de forma diferenciada, dependendo da dependência de nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). O milho e o trigo são as culturas mais críticas para a segurança alimentar, com reduções de doses que podem chegar a 25% no Brasil e na Argentina. [17]
Isso poderia gerar uma redução de 3% a 7% na produção agrícola total da América Latina.

Nesse contexto, os agricultores não deixarão de produzir, mas produzirão de maneira diferente — com menos fertilizantes e maior seletividade de cultivos. Além disso, poderão reduzir os investimentos por hectare, incluindo produtos fitossanitários e pacotes tecnológicos de proteção de cultivos.

O impacto dessa conjuntura variará conforme a cultura, o nível de dependência de nutrientes e a capacidade de adaptação de cada sistema produtivo.

Slide
Cultura
Exposição
Impacto no rendimento
Consequência-chave

Banana

Extrema

-5% a -10%

Custos logísticos e de insumos +40%; perda de competitividade [22]

Milho / Trigo

Muito Alta

-5% a -12%

Aumento nos custos de carne e frango; pressão inflacionária [17], [18]

Café

Alta

-5% a -15%

Redução da qualidade (grãos menores) e da renda rural [20], [21]

Cana-açúcar

Média-Alta

-3% a -8%

“Cultura refúgio” devido à fixação biológica de N [23]

Soja

Média

-2% a -6%

"Cultivo refugio" por fijación biológica de N [19]

Cultura
Exposição
Impacto
Consequência-chave

Banana

Extrema

-5% a -10%

Custos logísticos e de insumos +40%; perda de competitividade [22]

Milho / Trigo

Muito Alta

-5% a -12%

Aumento nos custos de carne e frango; pressão inflacionária[17], [18]

Café

Alta

-5% a -15%

Redução da qualidade (grãos menores) e da renda rural [20], [21]

Cana-açúcar

Média-Alta

-3% a -8%

Açúcar e etanol mais caros, afetando o setor energético [23]

Soja

Média

-2% a -6%

“Cultura refúgio” devido à fixação biológica de N [19]


 

Recomendações da CropLife Latin America

Ações prioritárias 2026–2027

  • Acelerar a agricultura de precisão: Promover incentivos para tecnologias digitais, diagnóstico de solos, monitoramento e aplicação variável. A agricultura de precisão permite diagnósticos cirúrgicos que otimizam os insumos e protegem a operação da volatilidade energética [26].
  • Impulsionar a nutrição integrada: Facilitar marcos regulatórios ágeis para soluções biológicas complementares aos fertilizantes convencionais. Priorizar o conceito de “Produzir mais com menos” por meio da otimização da eficiência no uso do nitrogênio [24], [25].
  • Garantir a disponibilidade de insumos: Evitar restrições comerciais, barreiras regulatórias desnecessárias e obstáculos logísticos que limitem o acesso oportuno a fertilizantes e tecnologias agrícolas. A FAO reiterou a necessidade de manter os fluxos comerciais abertos e evitar restrições às exportações — erros críticos observados em crises anteriores (2008 y 2022) [13], [29], [30].
  • Proteger a produtividade agrícola: Priorizar políticas que mantenham o acesso dos agricultores a tecnologias de proteção de cultivos, financiamento, capacitação técnica e ferramentas de inovação que sustentem os rendimentos e a competitividade.
  • Combater o mercado ilegal: Crises de custos tendem a aumentar o uso de produtos ilegais ou de baixa qualidade, afetando negativamente a produtividade, o meio ambiente e a saúde.

A resiliência agrícola da América Latina dependerá da capacidade de governos, produtores e cadeias agroalimentares de agir de forma coordenada, acelerar a inovação e garantir o acesso a insumos e tecnologias que permitam produzir mais eficientemente por hectare. [2], [31], [32], [33], [34]

 

Bibliografía citada

[1] https://doi.org/10.22541/au.176168535.59223772/v1

[2] https://doi.org/10.1515/gj-2017-0039

[3] https://doi.org/10.46398/cuestpol.4178.45

[4] https://doi.org/10.1111/1467-8489.12497

[5] https://shs.hal.science/halshs-05483215

[6] https://doi.org/10.1007/s11367-023-02187-5

[7] https://doi.org/10.21203/rs.3.rs-3289367/v1

[8] https://doi.org/10.1038/s41893-023-01166-w

[9] https://doi.org/10.1038/s41467-023-41504-2

[10] https://doi.org/10.13140/rg.2.1.1006.7922

[11] https://doi.org/10.18235/0004590

[12] https://doi.org/10.5751/es-09983-230134 

[13] https://doi.org/10.1038/s43016-022-00659-9

[14] https://doi.org/10.1038/s41893-023-01154-0

[15] https://doi.org/10.1007/s13753-016-0097-2

[16] https://doi.org/10.1017/9781009157988

[17] https://doi.org/10.18235/0003794

[18] https://doi.org/10.1596/43433

[19] https://doi.org/10.48077/scihor.25(2).2022.97-103

[20] https://doi.org/10.22231/asyd.v22i2.1680

[21] https://doi.org/10.1016/j.agsy.2023.103814

[22] https://doi.org/10.1007/s11356-025-35886-7

[23] https://doi.org/10.3389/fsufs.2025.1630441

[24] https://doi.org/10.3390/nitrogen6040111

[25] https://doi.org/10.20944/preprints202510.2490.v1

[26] https://doi.org/10.1111/1751-7915.13973

[27] https://doi.org/10.3390/microorganisms10061220

[28] https://doi.org/10.9734/jeai/2023/v45i122284

[29] https://doi.org/10.22395/ojum.v19n40a6

[30] https://doi.org/10.47172/sfp2020.979-8-9867349-6-5_4

[31] https://doi.org/10.3389/fsufs.2023.1124640

[32] https://doi.org/10.1038/s43016-025-01125-y

[33] https://doi.org/10.1186/s40066-023-00409-5

[34] https://doi.org/10.1371/journal.pone.0093998 


*Cómo citar este documento:

CropLife Latin America. 2026. Eficiência, inovação e comércio: chaves para enfrentar a instabilidade geopolítica no agro. Recomendações da CropLife Latin America.

As opiniões expressas neste documento representam a posição da CropLife Latin America na data de publicação e estão sujeitas a alterações.